Vida de intercambista: impactos emocionais

Passar uma temporada fora de casa, longe da família e dos amigos, exercendo novas atividades, pode ter um impacto psicológico muito grande para o intercambista.  Caroene Santos, que está na Irlanda há 6 anos, respondeu algumas perguntas sobre o assunto. Ela é graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Estudos Psicanalíticos pela University Trinity College Dublin e membro do PSI (Psychological Society of Ireland).

 

Você faz atendimento a intercambistas, né? Quais são as principais reclamações? Quais os sintomas eles mais apresentam?

 

Ofereço atendimento a intercambistas, e suas principais reclamações são:

-Dificuldades em manejar a falta da família e amigos, o que chamamos de ‘Homesickness’;

-Solidão;

-Ansiedade excessiva;

-Depressão;

 

E numa contrapartida também existem aqueles que já se adaptaram e me procuram porque não estão sabendo lidar com a volta para casa e o fim do intercâmbio, estão ansiosos e apreensivos com a volta para “casa”, é o que chamamos de Síndrome do Regresso: readaptação à pátria.

 

Um intercâmbio pode provocar um grande rebuliço emocional antes, durante e depois do retorno. A ambivalência é um grande desafio a ser superado por aqueles que planejam fazer intercâmbio ou trabalhar fora do país de origem, já que não existe experiência migratória sem medo e desafios.

 

Como diferentes fases da vida podem influenciar na experiência do intercâmbio? Você acha que há diferença entre um intercambista aos 18, 30 ou 50 anos?

 

Sim. As diferentes fases da vida podem influenciar no intercâmbio, em cada etapa, as experiências e vivências são diferentes, tanto pela maturidade adquirida com o tempo, quanto pelas próprias experiências vividas e assimiladas. Não existe um padrão fixo de intercambista, cada um viverá o intercâmbio singularmente.

 

As diferenças entre um intercambista de 18, 30 e 50 anos envolvem não somente a idade em si, mas o que o intercambista experimentou ao longo de sua jornada. Deparamos com intercambistas de 20 anos que já viajaram bastante, estão no segundo, terceiro intercâmbio etc., e intercambistas com 50 anos que estão realizando um sonho de viver em outro país pela primeira vez, tendo o primeiro contato com uma segunda língua, por exemplo.

 

É muito pessoal a diferença entre intercambistas e nem sempre a idade será um fator que determinará se o intercambista se adaptará melhor ou pior nessa experiência de viver fora.

O legal de fazer um intercâmbio também se dá ao fato de experienciar essa diversidade (pessoas, idades, vivências). Tudo é valido e novas experiências são bem-vindas em todas as fases e idades da vida.

 

A nova geração  tem demorado para sair de casa. É comum ver adultos na casa dos 30 morando com os pais. Você acha que o intercâmbio pode funcionar como um ensaio para uma independência?

 

Com certeza, o intercâmbio também funciona como ferramenta rumo à independência. A experiência longe da nossa zona de conforto (muitas vezes casa dos pais, avós etc.), o entusiasmo diante das descobertas e vivências das mais variadas naturezas são benéficos e nos mostram um mundo bem maior do que a nossa própria bolha. Não tem nada de errado em gostarmos da nossa bolha, mas é fato que olhar fora e além dela, experienciar o diferente, traz a todos uma noção do tamanho das coisas a serem vividas e experimentadas. Costumamos ignorar a existência de muita coisa ao nosso redor e um intercâmbio nos permite reconhecer tudo o que já temos de bom na vida, e queremos manter, e aquelas coisas que gostaríamos de mudar. Intercâmbio é um verdadeiro ensaio para novas conquistas, através de frustrações e satisfações o intercambista vai se equilibrando rumo à sua independência como indivíduo.

 

Como um intercâmbio pode ajudar no amadurecimento do intercambista?

 

Acredito que a experiência do intercâmbio seja para aprender uma língua diferente, concluir diversos estudos, estagiar ou trabalhar é também relevante como um importante fator de amadurecimento emocional.  Ter a capacidade emocional de lidar com os desafios da vida, entendendo suas normas e o poder das escolhas e suas consequências, é o caminho natural do desenvolvimento sadio. Experiências de intercâmbio, o aprender a “se virar” longe de casa, sair da zona de conforto, certamente contribuem para esse desenvolvimento e amadurecimento.

 

Quando se está acostumado a ter apoio, suporte da rede familiar, muitos dos indivíduos chegam à maioridade sem realmente serem maiores e autônomos. Com a experiência fora do país, longe dos pais e do conforto de ‘ter tudo pronto’, aumenta a autonomia do indivíduo e o amadurece. Além de adquirir conhecimento geral, o contato com culturas e pessoas diferentes, num intercâmbio o amadurecimento emocional é um dos principais ganhos.

 

Muitos nunca saíram de casa, viviam sobre as regras dos pais. De repente experimentam ser livres, viverem por conta própria.  Quais os perigos dessa liberdade excessiva?

 

Existe o perigo da frustração e do sentimento de incapacidade pelo simples fato do intercambista  ser muito novo ou inexperiente  e estar acostumado a contar com diversas ajudas, emocionais, financeiras, e até para estabelecer os seus limites.

 

Quando se está sozinho em um universo que não é seu, no caso um país diferente, o intercambista  pode se sentir dono de uma liberdade excessiva e fazer tudo o que lhe era negado ou proibido na casa dos pais, pode vir a se comportar nos excessos. Isso num futuro próximo pode lhe trazer consequências boas (novas vivencias, amigos, socialização, independência financeira etc.) ou ruins (falta de dinheiro, irresponsabilidades em geral, etc.) e o intecambista terá que lidar com isso sozinho em muitos casos.

 

A gente ouve casos de intercambistas que não querem voltar pra casa dos pais quando voltam pro Brasil. Isso é um reflexo da experimentação da liberdade?

 

Eu vejo mais como um sinal de amadurecimento, emocional e experimental. Quando o intercambista se depara com situações onde ele tem que se virar, fazer tudo por ele mesmo, ter responsabilidade e ditar suas próprias normas e regras dificilmente ele vai querer voltar a morar com pais e família, já que está mais integrado, amadurecido e independente.

 

Nos casos em que intercambistas voltam a morar com as famílias, esse retorno acaba sendo temporário pela falta de readaptação aos velhos hábitos, muitos acabam indo morar com amigos ou sozinhos, e outros já planejam ou embarcam num novo intercâmbio.

 

 

 

 

 

E como ficam os pais nessa situação? Como eles podem lidar com essa distância? Com as redes sociais, fica mais fácil a comunicação.  Qual o limite dessa comunicação? Skype todos dias, mensagens por WhatsApp o dia inteiro, além de acompanhar o Facebook, Snapchat, Instagram…

 

Os pais costumam se preocupar com os intercambistas que deixam o ninho para se aventurar e é normal muitas ligações, e-mails e mensagem de textos para saber como estão indo as coisas. É uma preocupação normal e saudável de ambas as partes, para saber das novidades (pais) e para contar as novas experiências (intercambistas).

 

Os pais, familiares e amigos são de extrema importância num intercâmbio, são o elo de ligação do intercambista com sua zona de conforto, o ponto seguro. Não há limites para a comunicação. Hoje em dia com os diversos meios de comunicação os intercambistas e familiares têm a vantagem da comunicação instantânea como o WhatsApp, e as chamadas de vídeo como Skype e Facebook, onde se amenizam a falta e a distância, além de acompanharem o que está acontecendo na vida de ambos através das redes sociais.

 

Porém tudo que é em excesso não é bom, pais que estão vivenciando a Síndrome do ninho vazio costumam fazer vigília em seus filhos mesmo distantes e isso acaba gerando conflitos, mas na maioria dos casos se trata de uma fase de adaptação e com o tempo a nova rotina começa a ficar mais integrada para pais e intercambistas.

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